23 de novembro de 2016

Nada mais será igual!



- Respira comigo, por favor. Respira.
- Já sinto falta do teu beijo, cheiro, abraço. Já sinto falta do teu to...
- Para. Não fala nada. Por favor, meu amor. Respira. Olha para mim. Olha em meus olhos. 
- Enxergo através dos seus olhos caramelados, a sua alma e coração. Eu te amo tanto.
- Eu também te amo muito. Fica comigo, meu amor. 
- Eu quer... Eu não estou conseguindo respi...
- Nãão – gritei ao presenciar a perda do brilho dos seus olhos. 
Então a grande cortina vermelha do teatro M&M, o teatro mais famoso da pequena Neópolis se fechou e do palco pude ouvir os eufóricos gritos da plateia. Levantei do chão de madeira junto ao Leo e o beijei ardentemente no instante que a cortina voltou a se abrir. Pude ver olhos brilhantes, aplausos, e flores sendo arremessadas ao palco depois que o nosso beijo cessou. 
As luzes do teatro se apagou. O barulho que nele existia me fazia entender que as pessoas iam embora. Meu coração explodia de felicidade. Eu vivia a vida de atriz que sempre desejei e tinha ao meu lado o grande amor que a vida me deu. Não existia pessoa mais satisfeita e feliz que eu.
Olhei para o Leo e seus olhos brilhantes foram as únicas coisas que pude enxergar. Seu olhar fitava o meu. Tudo dentro de mim se estremeceu quando ele sussurrou um “Se segura”. As luzes voltaram a iluminar a sala de teatro e uma voz soou das caixas de som, tomando de volta a atenção do público.
- Hoje é um dia muito especial – ele falou caminhando para a ponta do palco. – Hoje foi a estreia no teatro de uma pessoa que entrou na minha vida de uma forma tão magica, que demorei a acreditar que ela era real. Vocês têm um tempinho para ouvir essa história?
Um sorriso bobo se estacionou em meu rosto quando vi as pessoas voltando para as suas poltronas. Continuei parada ao lado do elenco da peça, enquanto o Leonardo, o meu Leo, continuava na ponta do palco, agora sentado ao chão de madeira. Quando pôde perceber que todos o esperava falar, ele olhou para mim, estendeu a mão convidando-me a sentar ao seu lado e sorriu. Foi impossível rejeitar o seu convite. Em menos de um minuto o meu grande amor voltou a falar e minha mente foi invadida pela noite da nossa primeira troca de olhares.
- Eu tinha 15 anos e sempre fui esse garoto magrinho, meio feinho – alguns sorrisos da plateia -. Vocês sabem que é muito difícil chegar um parque na nossa cidade, e quando chega se torna impossível as pessoas ficarem em casa...
Fechei meus olhos, e enquanto o Leo narrava a sua parte da história, o meu coração me fazia viver o meu lado. O lado feminino daquela apaixonante noite.

- - - - -

Depois de muito insistir, a Vitória, minha melhor e única amiga, conseguiu me tirar de casa para ir ao chato parque de diversão que havia chegado na cidade há três dias. Fui obrigada a vestir minha melhor roupa, um vestidinho rosado meio azul que vai até o joelho, e ir.
- Vamos primeiro na roda-gigante. 
- Eu tenho medo de altura – falei.
- Deixe de mentira – a Vitória sorriu. – Eu sei muito bem o único medo que você tem. 
- Para – pedi. – Você sabe que eu nem gosto de pensar nisso.
Ela estendeu-me a mão em silencio e sorrindo me conduziu até a enorme fila da roda gigante. A praça de eventos da pequena Neópolis estava lotada. Algumas vezes era preciso pedir licença, ou trombar nas pessoas para poder se mover. 
- Não compramos o ingresso – falei quando entramos na fila. 
- Segura aí que eu vou comprar.
- Não. Eu vou com você.
- Se você for, a gente perde a vez. A fila cresce a cada segundo. Eu já volto.
E então ela foi. E pela demora, a fila da bilheteria estava bem maior que a da roda gigante. Foi como se eu tivesse olhado para trás e quando olhei para frente era chegada a minha vez. 
- Minha amiga foi comprar os ingressos. Ela já vem.
- Mocinha, quando ela chegar você mostra ela e eu pego o ingresso. Sobe para não atrasar a fila.
A roda gigante parou e uma cadeira com um garoto magro, alto, cabelo liso recém cortado e dono de um bigodinho no início de formação se estacionou a minha frente, convidando-me para nela subir. O garoto me olhou meio sério, meio sorrindo. Olhei para seus olhos, os olhos mais lindos que vi até o momento, olhei para trás torcendo que a Vitória estivesse chegando e gritei ao sentir alguém me puxar.
Completamente sério, o rapaz alto, magro e loiro fechou a cadeirinha e ordenou que o outro colocasse o brinquedo para funcionar. Sentir vontade de gritar, mas para nada iria adiantar. Olhei séria para o garoto ao meu lado. Ele me olhou e timidamente desviou o olhar. Só depois de duas voltas completas em silêncio, pude ouvir outra coisa a não ser minha respiração e os gritos das crianças.
- Que grosseria daquele cara. Se você quiser, eu denuncio ele ao dono quando descermos.
Olhei para ele e me surpreendi ao perceber que ele falava sem ao menos me olhar. Sorrir. Ele me olhou sorrindo. Gritei quando todo o parque se escureceu e a cadeirinha paralisou no ponto mais alto da roda gigante.
- Não precisa ter medo – ele falou. – Não sou um super-herói, mas estou aqui com você. Você não está sozinha.
Abrir a boca, mas antes que uma única palavra saísse, meu celular começou a tocar. Atendi gritando ao perceber que era a Vitória.
- Calma, garota – ela falou. – Esse garoto que você tá ao seu lado, pelo o menos é bonitinho?
Olhei para ele, me arrependendo no mesmo instante. Só pude enxergar os seus olhos, que me olhavam brilhantes.
- Não sei – respondi secamente. – Tchau.
Desliguei. Direcionei meu olhar para minhas mãos por causa da vergonha que me tomava. Não sei porque, mas em todo momento sentia que o garoto ao meu lado me olhava. Meu coração quase saiu pela boca quando ele perguntou se a pessoa que me ligou perguntou alguma coisa sobre ele.
- Porque você me fez essa pergunta? – questionei gaguejando.
- Você me olhou antes de falar o “não sei” – ele sorriu. – Qual foi a pergunta?
- Não teve nenhuma pergunta – sorrir.
- Ah. Agora você me deu a certeza. Não vai me dizer o que ela perguntou? 
Sorrir. 
Ele insistiu duas vezes seguidas. Tapei meus olhos com as mãos e sorrindo falei baixinho o que ele queria saber. Meu coração congelou com a sua nova pergunta. 
- Se quiser, não precisa responder. Mas eu bem que queria saber a resposta – ele sorriu.
Pedi silenciosamente para a energia voltar e a roda gigante funcionar, mas o meu pedido não foi atendido. Olhei envergonhada para o céu. Voltei a olha-lo e ele ainda me olhava. Sorrir.
- Você não vai me responder?
Então eu decidir responder, mas as luzes se acenderam, as crianças gritaram em alegria e o parque voltou a funcionar. Em menos de dois minutos estávamos descendo da roda gigante.
- É. Você não me respondeu mesmo – ele falou sorrindo antes da Vitória aparecer me puxando para longe.

- - - - -

- Gaby? Gaby? 
Voltei das lembranças sorrindo. Abrir os olhos e me escondi nos braços do Leo quando vi toda a plateia me olhando.
- Tá. Agora que ela voltou. Deixa-me continuar – o Leonardo sorriu. – Aí ela foi embora. Mas foi embora me olhando no fundo dos olhos. Para mim ali era um sinal que alguma coisa ainda ia acontecer. Não era o nosso ponto final, sabe. E realmente aconteceu. Dois dias depois eu estava mexendo no Facebook e do nada quem aparece para eu mandar solicitação de amizade? Gabriela Ramos – ele me beijou a testa. – Eu mandei na mesma hora. Ela aceitou na mesma hora. Olhem só que química. E para encurtar a história, começamos a conversar e no primeiro encontro pedi para namorar ela. Eu pedir mesmo, porque meu coração sabia que com ela eu viveria coisas fantásticas. Faz cinco anos que vivemos essas coisas. 
Ele me beijou. Toda a plateia começou a aplaudir. Eu sorrir e baixinho perguntei o porquê daquilo tudo. Eu só não tinha percebido que o microfone estava bem próximo da minha boca. Todas as pessoas presentes ouviram a minha pergunta.
O Eduardo levantou, esticou o braço para mim e me pôs de pé. Olhando-me nos olhos, com os nossos corpos próximos, colados. Nossos lábios separados pelo microfone, ele fitou meus olhos e sorrindo sussurrou como se apenas eu pudesse ouvir:
- Gabriela Ramos, minha Gaby, eu, Eduardo, seu Edu, peço agora a sua mão em casamento.
- O que? – gritei.
- Ai que lindo – ouvi alguém gritar da plateia.
- Se ela não quiser, eu quero – uma voz feminina soou no teatro.
Olhei junto ao Edu, e sorrindo voltamos a nos olhar. Sem tirar os seus olhos dos meus por um segundo, meu príncipe namorado ajoelhou-se a minha frente, tirou do bolso uma caixinha vermelha e sorriu. O brilho do meu olhar se intensificou quando ele mostrou-me o anel de noivado e uma lágrima dançou em meu rosto quando respondi sim para a sua pergunta. 
Dois encantados dias se passaram e eu ainda flutuava sem sair do chão com o acontecido. Era possível ver notícias sobre o meu magico pedido de casamento em todas as redes sociais. Toda a movimentação que o noivado estava trazendo para minha vida mexia muito comigo. Um mexer bom. 
- Sim. Eu já estou pronta – respondi sorrindo sem tirar os olhos do anel há dois dias estacionado em meu dedo. – Você vem me buscar, ou nos encontramos lá?
- Estou saindo de casa agora – o Edu respondeu sorrindo. – Chego em alguns minutos na sua casa.
Eu já estava prestes a desligar, quando sorridente ele chamou minha atenção.
- Oi – respondi sorridente.
- Eu só queria dizer que te amarei eternamente. Serei sempre o seu Edu. Estou chegando.
Sorrir apaixonadamente. Meu sorriso foi esmagado com a chegada.
O que chegou em alguns minutos foi a notícia. A notícia que me tirou o chão, fez-me afundar em um oceano de desespero, onde o amor e suas coisas boas não habitavam. As lágrimas não paravam de descer dos meus olhos. A Vitória me abraçava como uma mãe abraça a sua filha. Eu não sabia fazer outra coisa a não ser chorar.
- Foi uma fatalidade. Ele estava sem capacete e o outro motorista, bêbado – ouvi uma tia do Edu falar ao telefone. – Precisamos rezar para que ele reaja.
E escutar a sua última palavra me fez cair em si. Foi então que percebi que a situação não era como eu pensava. O grande amor da minha vida não estava tão bem como me disseram. Enquanto fiquei sentada na sala de espera do hospital, minha mente era de certa forma maltrata pelas doces lembranças dos doces acontecimentos com o meu Edu.

- - - - -

Cheguei toda envergonhada mesmo depois de todas as mensagens que havíamos trocado. Primeiro encontro sempre causa nervosismo para a pessoas, principalmente quando essa pessoa vai para o primeiro, isso mesmo, o primeiro encontro da sua vida.
Fomos para a sorveteria e só depois de longos minutos os nossos sorvetes chegaram. Sem querer querendo, o Edu melou o nariz. Movida por algo desconhecido, posicionei meu corpo para perto dele e taquei a língua na pontinha, limpando completamente o sujinho. Voltei a sentar no mesmo instante, louca de vontade de levantar e ir embora. Ele me olhou sério e sorriu. Sorrir ainda envergonhada. Por perceber que eu não me sentia à vontade, ele pediu sorridente que eu desse a minha mão. Sorrir.
- Pode confiar em mim. Não vou fazer nada de mal.
Então eu dei. Ele segurou em um dedo meu, tirou um pouco do sorvete e lambuzou os meus lábios. Eu o olhei assustada.
- O que foi isso? – sorrir.
- Agora é a minha vez de te limpar.
E literalmente me surpreendendo, o Edu pediu licença e encostou os seus lábios nos meus. Fiquei com os olhos abertos e ele fazia o mesmo. Fechei-os e foi aí que meus lábios começaram a se movimentar. Abrir novamente os olhos no meio do beijo, e agora os olhos deles se mantinham fechados. Ele me esperava fechar os olhos para poder fechar os seus. O fechar dos meus olhos era a permissão do nosso beijo.

- - - - -

Abrir os olhos assustada com o toque em meu ombro. A primeira pessoa que vi a minha frente foi dona Rebeca, a mãe do Edu. Ela me olhava apreensiva. Bastou abrir a boca para começar a chorar. Embarquei junto a ela, no choro.
- Ele acordou – o médico apareceu meio que sorrindo. – Acordou, mas estar muito frágil. Infelizmente as notícias não são tão boas. 
- Ele acordou – dona Rebeca gritou. – Doutor, essa já é uma notícia ótima.
- A Gaby está aqui?
- Sou eu – falei levantando.
- A Gabriela? Ele quer falar com a Gabriela? Não quer falar com a mãe?
- Senhora, ele apenas falou o nome Gaby. Ele está muito frágil. Acredito que queira vê-la. A entrada está autorizada?
Dona Rebeca sentou em uma das cadeiras da sala de espera, e completamente seria e triste autorizou a minha entrada. Abracei a minha sogra agradecendo e sem motivos pedir desculpa antes de entrar. Meu coração se estremeceu quando entrei no quarto do hospital e vi o meu amado com o corpo cheio de aparelhos, deitado em uma das camas. Caminhei até o seu encontro suspirando a cada passo. Era como se a cada suspiro, o meu coração perdesse a intensidade dos seus batimentos.
Não sei se ele estava dormindo, ou acordado. Mas quando cheguei perto e encostei em sua mão, ele apertou um dos meus dedos. Olhei para sua mão e meio que sorrindo para seu rosto. Eu pude ver o brilho do seu olhar.
- Ga...
- Não fala nada – pedi. – Poupa suas forças, por favor.
- Eu...
- Para, Edu. Para. Por favor, para.
- Eu preciso dizer que te amo.
E então ele suspirou fundo e naquele suspiro pude enxergar o brilho do seu olhar se apagando. Me desesperei completamente. Pedi sem parar que ele ficasse comigo, gritei dizendo-o que o amava. O desespero me tomava para si naquele momento. E então os médicos me puxaram para fora da sala. Simplesmente apaguei no momento que meus olhos não podiam mais ver o grande amor da minha vida.
Posicionei a câmera. Apertei o Play. Começou a gravar.
- Hoje é um dia de luto. O dia que vivi o grande e único medo da minha vida: Perder para a morte, quem amo. Faz exatamente um mês que vi o brilho do olhar do meu grande amor se apagar, e depois desse dia tudo foi diferente. Nada. Absolutamente nada. Nem uma virgula, ponto ou reticencia da minha vida está sendo igual como quando ele estava aqui. A vida imitou a arte. Dois jovens atores dramatizando a perda de um grande amor. Eu sou a jovem atriz que nos palcos dava vida o fim de um relacionamento causado pela morte. Eu sou a jovem atriz golpeada pela vida. Eu sou a jovem atriz que perdeu seu grande amor nos palcos, parques, praças, ruas, ca... Na vida. Meu nome é Gabriela. Para ele, Gaby. Eu tive o prazer de ver o ultimo olhar dele. Ele não tem noção do quanto sou grata por ser a escolhida para a sua despedida. Eu o amo tanto!
As cortinas se fecharam. As pessoas aplaudiam. As cortinas voltaram a se abrir. Foi nesse exato momento, onde eu via lágrimas em rostos emocionados, que percebi que o meu grande amor me deu uma nova vida. Foi aí que aprendi que finais são reticencias que a vida nos dá. 
As luzes da sala de teatro se apagaram. Olhei para cima e meu coração se acendeu quando fechei meus olhos e imaginei o Edu me olhando. Eu pude ouvir a sua voz:
- Serei eternamente seu. Seu Edu. Seu!



BIOGRAFIA DO AUTOR 
  Casinho Lima nasceu na cidade de Penedo/AL, mas desde que saiu da maternidade reside em Neópolis, um pequeno interior da menor capital do Brasil (SERGIPE).    Apaixonado desde a infância pelo mundo literário, decidiu se arriscar e publicou seu primeiro livro (Ironias de uma blogueira) no ano de 2015, usando seu nome de batismo "Oscar Lima" como nome de autor (o motivo da mudança de nome artístico você descobre por ai).  Hoje, sonha em viver com o mundo artístico. Sortudo aquele que se tornar dono ado pendrive que esse jovem autor carrega com maior proteção. Nele, mora uma multidão de personagens loucos para se tornar amigos de todos os leitores.

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